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Em entrevista, Joshua Redman fala sobre show com Letieres Leite & Orquestra Rumpilezz

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Entre entrevistas, que fiz com o maestro Letieres e o saxofonista Joshua, e minha ida ao show no dia 25 de agosto, tive a intenção de construir  uma resenha, mas depois de tudo só sobrou poesia.

Eugênio Lima para Rádio UOL

“Bantos, Gêges, Nagôs…

Angola, Luanda, Nigéria, Daomé, Cabinda, Mina,

Quíloa, Rebolo…

Terreiros da cidade da Bahia, Salvador…

Terreiros da praça Congo, New Orleans…

King George, Louis, Parker, Dizzi, Monk,Max, Mingus, Miles

Coltrane… Afoxé, Ijexá, Alujá, Ialorixá, Babalorixá, Ifá…

Numa noite de inverno, na cidade que a garoa rasga a carne é Torre de Babel.

Numa noite de inverno na Panamérica de Áfricas utópicas, novo Quilombo de Zumbi: Os tambores se reencontraram com a melodia.

Rum, Rumpí e Lê, se encontraram com o Jazz.

Um encontro de novos-velhos amigos, amigos que traçam uma longa caminhada,

que começou nas chagas da escravidão, no trânsito do atlântico negro, no comércio humano, que formou todas as Américas.

Mas hoje é dia de celebração, hoje é dia das lembranças, das memórias,

da surpresa, do ímpeto, da vontade e da sutileza.

Hoje os irmãos se reencontram, a ancestralidade comum, dita o ritmo e a

Mãe de todos se faz presente até quando ausente: África, ou melhor Áfricas…

Hoje o dia é noite e o som é a chama, o fogo criativo, a labareda sonora, que manteve  a vela acesa.

As escolas se reapresentam, a luz de seus ancestrais…

O som pede a licença para que o novo possa ser criado, no ato, no instante supremo, que logo depois será a apenas memória e assim se fez: música.

Nesta noite eu fui uma das testemunhas, eu fui um dos tantos convidados para

o batuque, eu fui um dos presentes na Mani-festa-ação de sonoridades irmãs.

Começa entro…

Timbres, batidas sagradas, solos virtuosos, Freestyle, acordes feitos por instrumentos de sopro, dissonâncias, harmonias, melodias, claves, música afro-diásporica.

Anunciação, Aláfia, Jazz Crimes, Floresta Azul, Hide and Seek e mais, muito mais mesmo.

Entre  solos, dinâmicas, cadências ritualísticas e arranjos primorosos, os povos contidos em cada instrumento  se comunicavam sem palavras…

O diálogo entre os Brasis, as Áfricas e Américas, seguiam sem vogais ou consoantes, as identidades somavam-se e a cada novo sopro, adicionava-se mais poesia, sons cheios de beleza e fúria: efusão.

Potências e dinâmicas, que elevam e surpreendem.

Paralisam.

Um som de tirar o fôlego e acima de tudo música, muita música.

O som que um dia foi rito, reencontra com os ritos que se tornaram cultura

Linguagem em forma de música.

Jazz e Candomblé…

Candomblé e Jazz… música numa sofisticação ímpar.

Ai que saudade de ti sublime Afro-América-Bahia.

Eu vi… Ninguém me contou…

Eu fui, vi e ouvi.

Certas vezes (acho eu) é preciso lembrar para continuar, para seguir viagem.

Certas vezes é preciso recuperar o sentido primeiro.

Por que eu realmente, comecei a ouvir este som mesmo?

Como era mesmo aquela sensação de arrebatamento, que não dá para descrever?

Bem hoje foi um destes dias, ou melhor uma destas noites, que lembrei do por que, foi  uma das noites que senti novamente aquele arrebatamento.

Foi uma das noites que lembrei por que eu comecei a gostar de Jazz ou melhor de Música, ou melhor da Liberdade, do encontro e da saudade em forma de som''